Nesta entrevista exclusiva, o escritor Alberto S. Santos desvenda os bastidores da sua investigação sobre o Hospital Colónia de Barbacena. Entre o rigor documental e uma poética marcada pela sobrevivência, o autor reflete sobre a forma como a burocracia se transformou num instrumento de tortura e como o silêncio de personagens como Bernardo e Teresinha pode ser entendido como uma forma de resistência.
A poética da contenção
Jornal: O seu mais recente livro aborda uma das maiores tragédias humanas do Brasil. Como se equilibra a dureza dos factos com a construção de uma narrativa literária?
Alberto S. Santos: Nunca parti da intenção de “embelezar” a história, mas sim de mostrar a vida que corria dentro do Hospital Colónia. O horror, quando descrito de forma direta, pode saturar ou até anestesiar o leitor. Por isso, a linguagem não procura suavizar, mas antes abrir uma fresta por onde o leitor possa entrar e observar aquele microcosmo humano. Optei pela contenção: sempre que uma frase começava a soar demasiado “bonita”, perguntava a mim próprio — isto fere ou adormece? Se adormecia, era eliminada. Se feria, mantinha-se.
Jornal: No livro, os objetos parecem assumir o lugar da presença humana. Por que razão dá protagonismo ao ferro, à cal ou ao vento?
Alberto S. Santos: Porque, quando o humano abdica, os objetos passam a existir de forma mais intensa e acabam por “comandar” a vida dos internos. Não se trata de desviar responsabilidades. É que o ferro fecha, a cal apaga e o vento escuta — simplesmente porque já não há ninguém que o faça.

A linguagem do silêncio
Jornal: Bernardo é uma personagem profundamente marcada pelo silêncio. Foi difícil confiar que o leitor compreenderia alguém que quase não fala?
Alberto S. Santos: Foi talvez o maior desafio: aceitar que o silêncio podia ser uma forma de linguagem, e não apenas ausência. Bernardo comunica através de pequenos gestos — no modo como ampara um corpo ou como se posiciona no lugar certo sem chamar a atenção. Isso exige confiança no leitor, deixando espaço para a sua interpretação. É quase uma espécie de coautoria. A ligação com Teresinha nasce precisamente nesse território mínimo, onde se reconhecem sem palavras, apenas por intuição.
Jornal: Refere-se a uma “gramática das grades”. Trata-se de uma metáfora para a prisão?
Alberto S. Santos: É mais do que uma metáfora; pretende ser algo concreto, quase literal — uma linguagem de sobrevivência feita de ritmos, pausas e olhares. Bernardo aprende esse idioma para sobreviver, e o leitor é convidado a aprendê-lo com ele.
A banalidade do mal
Jornal: Chama a atenção a forma como descreve a burocracia e figuras como o Dr. Flores ou D. Amélia. Não são os típicos “vilões”?
Alberto S. Santos: Não são monstros no sentido tradicional. São pessoas que aceitaram a lógica do sistema e convivem com ela como se fosse apenas mais uma tarefa quotidiana. Na minha investigação, o que mais me impressionou foi a rotina: carimbos e listas aparentemente neutros, mas é aí que a desumanização se torna eficaz. A violência deixou de depender de uma intenção individual para se transformar num simples procedimento. Tentei traduzir essa burocracia com um ritmo repetitivo e frases que parecem não ter autor.
Jornal: A cidade de Barbacena é conhecida pelas suas rosas. Como é que essa beleza coexiste com o horror do manicómio?
Alberto S. Santos: Trata-se de um contraste histórico e real. Os internos trabalhavam nos roseirais fora dos muros, pertencentes a proprietários rurais. Interessou-me esse jogo entre o visível e o oculto: o perfume e o trabalho forçado; a flor que enfeita o altar e o chão onde os corpos se desgastam. As rosas faziam parte, de forma natural, desse sistema de ocultação.
A universalidade da memória
Jornal: Joanésia, terra natal de Teresinha, simboliza uma ferida que nunca cicatriza?
Alberto S. Santos: Sim. Teresinha Alvarenga existiu realmente — era avó da minha dentista. Apesar de ter alterado a sua origem no livro, mantive a essência. A Joanésia do romance pode representar qualquer margem da sociedade de onde alguém, sem qualquer doença mental, é afastado do mundo visível apenas porque alguém decidiu descartá-lo. O que aconteceu no Colónia não pertence apenas a Barbacena; é algo que pode repetir-se em diferentes tempos e lugares.






