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Home Ciência

O degelo do Ártico está a dar espaço ao fitoplâncton para libertar gases (e formar nuvens)

Redação O Tablóide Por Redação O Tablóide
17 de Janeiro de 2020
Reading Time: 4 mins read
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As mudanças climáticas estão a afetar o mundo inteiro, mas o Ártico é o local que mais sente estas alterações. Segundo um relatório recente do IPCC, o Ártico já aqueceu em até 5ºC no século XX.

O aquecimento levou ao derretimento do permafrost, ao aumento do derretimento da camada de gelo da Gronelândia, que irá elevar o nível global do mar e diminuir a extensão do gelo do mar do Ártico.

Porém, um dos maiores impactos da mudança climática está em alguns dos mais pequenos membros do ecossistema do Ártico: o fitoplâncton – um termo coletivo para organismos marinhos que fotossintetizam e que são quase invisíveis a olho nu. Estas pequenas criaturas produzem até metade de todo o suprimento de oxigénio do mundo.

De acordo com um estudo recente de Martí Galí e outros investigadores da Université Laval, no Canadá, publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, o fitoplâncton pode ter um impacto ainda mais estranho no clima do Ártico.

O fitoplâncton precisa de duas coisas para crescer: luz e nutrientes. No oceano Ártico, os nutrientes raramente são um problema. As longas noites de inverno do Ártico, no entanto, significam que, na maior parte do ano, o fitoplâncton do Ártico não tem luz suficiente para crescer. A maioria das espécies do Ártico aguarda a luz solar para desencadear o seu crescimento e, quando recebem essa luz, florescem em abundância.

Porém, para que a luz do sol alcance o fitoplâncton no oceano, o plâncton precisa de estar numa parte do Ártico que não esteja coberta de gelo. A diminuição do gelo do mar do Ártico significa que estas regiões ficam sem gelo durante períodos mais longos, por isso o fitoplâncton do Ártico está a ficar cada vez maior.

Isto significa um aumento geral na quantidade de fitoplâncton no Ártico e, quando o fitoplâncton no Ártico aumenta, também pode aumentar, de acordo com o Massive Science, um certo gás na atmosfera – DMS.

DMS significa dimetilsulfureto. Nas baixas concentrações produzidas pelo fitoplâncton, normalmente, é inofensivo. Na praia, sente-se o cheiro do DMS, que é o mesmo odor produzido ao cozinhar milho, repolho em ebulição ou certos tipos de frutos do mar. É um componente crucial do “cheiro do mar” instantaneamente reconhecível.

Este gás é produzido naturalmente por certos tipos de fitoplâncton e, portanto, é natural supor que, à medida que o fitoplâncton aumenta, as concentrações de DMS aumentam. No entanto, o DMS é particularmente interessante por causa do seu papel suspeito na produção de nuvens.

A extensão total do vínculo entre o DMS e a formação de nuvens ainda é desconhecida mas, se o DMS afeta a formação de nuvens, a perda de gelo do mar no Ártico pode estar a contribuir para a existência de mais nuvens nesta zona.

Para estimar se as concentrações de DMS estavam a aumentar, Galí e a sua equipa tiveram de adotar uma perspetiva mais ampla, olhando a região a partir do Espaço. Os satélites SeaWIFS e MODIS-Aqua monitorizam desde 1997 a clorofila, o pigmento que dá às plantas a sua cor verde. A clorofila é frequentemente usada como substituto da biomassa fitoplanctônica – quando mais clorofila no oceano, mais fitoplâncton está ativo.

Ao combinar medições de clorofila com um algoritmo que converte biomassa em emissões de DMS, Galí e a sua equipa conseguiram estimar que as concentrações de DMS no Ártico aumentaram aproximadamente 33% por década. Os cientistas estimaram que as concentrações de DMS poderiam mais que duplicar no caso de um verão completamente livre de gelo, o que pode acontecer nos próximos 25 anos.

Se as concentrações de DMS no Ártico continuarem a aumentar, é razoável esperar uma alteração nos padrões de nuvens no Ártico. As nuvens desempenham um papel crucial na regulação do clima e na temperatura da Terra, podendo arrefecer a Terra se a luz solar for refletida do topo das nuvens e voltar para o Espaço ou ampliar o aquecimento se o calor da Terra for refletido debaixo das nuvens e voltar para o planeta.

Ainda não se sabe se as novas nuvens do Ártico pioram o aquecimento do Ártico ou ajudam a manter a região fresca. Porém, é importante entender a forma como as mudanças climáticas afetarão o Ártico, não apenas por ser um ambiente vulnerável que abriga aproximadamente quatro milhões de pessoas, mas sim porque é uma das primeiras regiões que estão a sentir os efeitos das mudanças climáticas. Perceber a forma como o Ártico será afetado ajuda-nos a preparar-nos para as mudanças climáticas em todo o mundo.

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