Genebra, Suíça – O Diálogo Global da ONU sobre Inteligência Artificial iniciou-se esta segunda-feira em Genebra, na Suíça. O encontro junta governos, gigantes da tecnologia, académicos e sociedade civil num esforço conjunto para estabelecer balizas na governança da inteligência artificial. O tom da abertura foi definido pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que alertou para a cadência vertiginosa do avanço tecnológico, questionando se a humanidade manterá o controlo ou se acabará por ser comandada pelas máquinas.
Pela primeira vez, o debate assegura um assento a cada país, superando a tendência de decisões tomadas apenas pelas potências tecnológicas. O objetivo central é transformar essa representatividade em ações concretas que tornem a IA mais segura e justa. Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral da ONU, sublinhou que a regulamentação não é apenas uma questão técnica, mas um compromisso ético: o progresso deve caminhar ao lado da dignidade humana e do desenvolvimento sustentável.
A urgência desta cimeira reside no desequilíbrio atual. Embora a IA já esteja a ser moldada por legislações nacionais e normas técnicas, estas são frequentemente desenhadas por nações onde a tecnologia é mais avançada, deixando os países do Sul Global à margem das decisões que mais os afetam. Este Diálogo, criado sob mandato da Assembleia Geral, procura corrigir a assimetria ao garantir que os países em desenvolvimento tenham poder de voto direto na definição das regras futuras.
A participação lusófona é um elemento de destaque. Carlos Manuel Baigorri, presidente da Anatel (Brasil), e Raquel Brízida Castro, vice-presidente do conselho de administração da Anacom (Portugal), integram as mesas de discussão sobre infraestruturas digitais e confiança. Paralelamente, o evento explora interseções singulares: na próxima quinta-feira, Puyr Tembé, liderança indígena do povo Tembé, da Amazónia brasileira, participará num painel sobre como a sabedoria ancestral e a gestão climática podem dialogar com a inteligência artificial para construir um futuro mais próspero.
O âmbito do debate é vasto e abrange desde a necessidade de uma supervisão humana robusta, em conformidade com o direito internacional, até ao impacto da tecnologia nas desigualdades sociais. Doreen Bogdan-Martin, da União Internacional de Telecomunicações (UIT), frisou que a cooperação deve contemplar, prioritariamente, os 2,2 mil milhões de pessoas que permanecem desligadas do mundo digital.
Para Khaled El-Enany, diretor-geral da UNESCO, a tecnologia não pode servir para uniformizar a cultura. O desafio é garantir que a inteligência artificial proteja e fortaleça o património linguístico e cultural da humanidade, em vez de atuar como uma força de erosão da diversidade. A conferência prossegue com a análise de implementações práticas, como a gestão de cidades inteligentes, reafirmando que, neste novo terreno, o desenvolvimento tecnológico deve ser, acima de tudo, um reflexo de toda a experiência humana.






