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Home Ciência

Há uma estranha ruína numa misteriosa ilha num lago da Mongólia (e já começou a contar os seus segredos)

Redação O Tablóide Por Redação O Tablóide
20 de Junho de 2020
Reading Time: 3 mins read
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Andrei Panin

Num dia de verão no que é hoje o sul da Rússia, uma árvore foi derrubada por um monumental projeto de construção: um conjunto palaciano de edifícios que nunca seriam usados. Agora, estão a contar os seus segredos.

A fundação retangular da estrutura foi construída a cerca de 48 quilómetros da fronteira com a Mongólia, numa ilha no lago Tere-Khol.

Desde que se soube da sua presença devido a uma pedra perto do rio Selenga – uma tábua rúnica com uma inscrição que detalhava o local -, o assentamento – conhecido como Por-Bajin – nunca foi completamente entendido.

Um complexo com aproximadamente o tamanho do Palácio de Buckingham, com paredes de barro de 10 metros de altura e vários pátios ao lado dos seus inúmeros edifícios, a construção uigur do século VIII produziu poucos artefatos arqueológicos que se esperaria de um edifício daquela magnitude.

“Havia muito mistério no sítio”, disse Margot Kuitems, investigadores de isótopos da Universidade de Groningen, e principal autora do estudo, em comunicado divulgado pelo EurekAlert. “Quem construiu? Quando foi construído? Mas com que finalidade? Era um mosteiro? Tinha finalidades defensivas? Ou era um palácio?”.

Agora, os investigadores podem finalmente ter algumas respostas para estas perguntas – respostas que obtiveram das flutuações inconstantes da radiação solar e da própria madeira cortada.

Em 2012, uma equipa de investigação japonesa identificou dois picos históricos no dióxido de carbono atmosférico – o composto essencial para a datação de matéria orgânica antiga, de anéis de árvores a ossos humanos. Todos os anos, a quantidade de carbono na atmosfera muda. Na maioria das vezes essas mudanças são subtis. Porém, nos anos 775 e 994, os investigadores demonstraram que a quantidade de carbono saltou, possivelmente devido ao aumento da atividade solar.

Os picos de carbono foram engolidos por árvores medievais ao redor do globo, desde os cedros japoneses que a equipa inspecionou até as arquibancadas da Ásia central – incluindo a árvore que foi cortada e incorporada na fundação de Por-Bajin.

As árvores desenvolvem “anéis” concêntricos de crescimento a cada ano de vida. Nesses anéis, há reflexos dos níveis de carbono naqueles anos. Usando a amostra de madeira da fundação do assentamento, a equipa de Kuitems conseguiu vincular o 43º anel da madeira caída ao espigão de carbono de 775. Dois anos depois, – durante o desenvolvimento do 45º anel da árvore – a árvore foi cortada. A adição simples permitiu à equipa concluir que a fundação de Por-Bajin foi lançada durante ou após o ano 777.

Tengri Bögü Khan, chefe do uigure Khaganate – um império que existia entre os séculos VIII e IX – converteu-se ao maniqueísmo, uma fé gnóstica, e tornou-a a religião do estado. Muitos ficaram descontentes com a mudança e, dois anos após a fundação de Por-Bajin, Bögü Khan foi morto numa revolta anti-maniqueísta.

“É bastante lógico que nunca tenha sido usado”, explicou Kuitems. “Havia evidências de que o período de construção demorou apenas cerca de dois anos. Faz todo o sentido que, logo após a construção, o líder tenha sido morto e [o local] completamente abandonado”.

A datação precisa do assentamento permitiu que os investigadores chegassem a uma conclusão lógica, baseada em evidências históricas. Embora a conclusão não seja imutável, abre caminho para futuras revelações de radiocarbono.

O estudo foi publicado este mês na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

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