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Home Editorias Ciência

A última sobrevivente do comércio transatlântico de escravos foi identificada (e era uma “rebelde”)

Redação O Tablóide Por Redação O Tablóide
30 de março de 2020
Reading Time: 3 mins read
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Domínio Público

Matilda Mccrear

No ano passado, Sally “Redoshi” Smith foi identificada como a última sobrevivente do comércio transatlântico de escravos. Porém, novas evidências revelam que Matilda McCrear viveu mais três anos do que Smith.

Há um ano, Hannah Durkin, da Universidade de Newcastle, identificou a a última sobrevivente do comércio transatlântico de escravos como sendo Sally “Redoshi” Smith. A menina foi raptada aos 12 anos e levada para o Clotilda, o último navio de escravos a chegar aos Estados Unidos em 1860, que foi encontrado no ano passado. Smith viveu no Alabama até à sua morte em 1937.

No entanto, de acordo com a emissora britânica BBC, a investigação mais recente de Durkin, publicada este mês na revista científica Slavery & Abolition, contraria essa conclusão. Na verdade, a última escrava sobrevivente foi uma mulher chamada Matilda McCrear.

De acordo com o jornal britânico Daily Mail, Matilda McCrear foi capturada no Reino do Daomé, que hoje é o Benim, e viveu mais três anos do que Smith, morrendo no Alabama em janeiro de 1940.

Apesar de McCrear ter morrido aos 83 anos sem contar aos seus descendentes sobre a sua juventude como escrava, a sua história foi trazida à tona. De acordo com o portal All That’s Interesting, a sua vida não só é a uma prova da força e resiliência, como também era o último elo vivo com todos os outros raptados como ela.

Matilda McCrear foi capturada na África Ocidental com 2 anos, chegando ao Alabama em 1860, onde foi comprada por um rico proprietário de plantações chamado Memorable Creagh, juntamente com a sua mãe Grace e a irmã Sallie.

O pai e dois dos seus irmãos ficaram em África. Ao chegar à América, McCrear e a sua irmã foram separadas da mãe e vendidas a outro proprietário. Toda tentaram escapar, mas foram imediatamente recapturadas.

Quando a abolição da escravidão em 1865 emancipou McCrear e a sua família, eles não tiveram outro opção: permaneceram onde viviam e trabalharam como agricultoras num regime de parceria rural.

“A história de Matilda é particularmente notável porque ela resistiu ao que era esperado de uma mulher negra no sul dos Estados Unidos nos anos após a emancipação”, disse Durkin. “Não se casou. Em vez disso, viveu em união de facto com um homem branco nascido na Alemanha, com quem teve 14 filhos”.

Esse relacionamento é surpreendente, segundo Durkin, porque, na época, a aparente incompatibilidade de raça, classe, religião e expectativa social não importava para o casal. McCrear manteve o seu senso de identidade cultural.

Aos 70 anos, a mulher caminhou 24 quilómetros até um tribunal do condado e exigiu uma indemnização pela sua escravidão. Porém, o racismo nos anos 30 ainda existia.

Mesmo quando morreu, uma década depois, havia mais vergonha no seu nome do que comemoração. “Havia muito estigma associado à escravidão”, disse Durkin. “A vergonha foi colocada sobre as pessoas que foram escravizadas, e não sobre os que escravizaram”.

Johnny Crear, o neto de Matilda, tem hoje 83 anos. Durante a sua vida, participou em ações de ativismo pelos direitos civis na sua cidade natal, Selma, onde Martin Luther King Jr. fez a sua marcha histórica e se dirigiu ao povo, mas nunca conheceu a história da sua própria avó era escrava – até agora.

Para o neto, estas novas revelações são chocantes e inspiradoras. “Isso preenche muitos dos buracos que temos sobre ela”, disse. “Desde o dia em que o primeiro africano foi trazido para este continente como escravo, tivemos de lutar pela liberdade. Não me surpreende que tenha sido tão rebelde. É refrescante saber que tinha o tipo de espírito que é edificante”.

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