Porto Príncipe, Haiti – O cenário que António Guterres encontra esta terça-feira em Porto Príncipe pouco tem de esperançoso. O secretário-geral das Nações Unidas aterrou na capital haitiana com um objetivo claro: medir a temperatura de uma nação asfixiada por uma espiral de criminalidade que já não deixa margem para manobra. Não é apenas uma deslocação diplomática; é uma tentativa de olhar de frente para o caos humano que se instalou na ilha caribenha.
Stephane Dujarric, porta-voz do líder da ONU, sublinhou que a presença de Guterres serve para testemunhar, sem filtros, os desafios extremos que os haitianos enfrentam diariamente. Entre encontros com vítimas da violência, o secretário-geral procura compreender o alcance real dos esforços de estabilização que, até agora, têm tido resultados difíceis de contabilizar.
A urgência da força internacional
O foco da agenda aponta diretamente para a eficácia da Força de Combate às Gangues, cujas operações estão ancoradas na resolução 2793 do Conselho de Segurança. A missão, sediada no Acampamento Vertières, na zona leste da capital, assume-se como o baluarte improvável contra o domínio dos grupos armados. Guterres quer avaliar de perto o suporte logístico e operacional que as Nações Unidas têm canalizado para esta força, numa altura em que a legitimidade da intervenção é colocada à prova pela persistência dos crimes.
A crise é descrita nos corredores das organizações internacionais como multidimensional, mas na prática traduz-se em números brutais. Desde o arranque deste ano, a contabilidade da barbárie regista pelo menos 2,3 mil mortes. A estes dados somam-se 1,1 mil feridos e uma sequência de 99 sequestros que mantém a população em estado de sítio permanente.
Diálogo ao mais alto nível
A estadia no país inclui uma reunião estratégica com o primeiro-ministro, Alix Didier Fils-Aimé. A discussão não será fácil. Paralelamente, vozes como a de Volker Turk, alto-comissário de Direitos Humanos, continuam a pressionar a partir de Genebra. O apelo é direto: a impunidade tem de ser travada com celeridade.
Turk insiste que a Força de Combate às Gangues não é apenas necessária, mas urgente. Contudo, o aviso fica feito: o mandato operacional tem de estar, obrigatoriamente, alinhado com as normas internacionais de Direitos Humanos. Resta saber se esta visita de Guterres será o catalisador para uma viragem na eficácia da resposta internacional ou apenas mais um capítulo de um registo de boas intenções num terreno que, por enquanto, continua a ser ditado por quem empunha as armas.











