Porto, Portugal – Milhares de pessoas voltaram a ocupar o espaço público em várias cidades portuguesas, redirecionando a luta inicial pela habitação para uma contestação aberta contra a intervenção da Polícia de Segurança Pública (PSP) registada na madrugada anterior. No Porto, na Praça D. João I, uma vigília improvisada manteve-se ativa com os manifestantes a recusarem abandonar o local, mesmo após a apreensão de estruturas de apoio. A assembleia popular aprovou por unanimidade a resistência pacífica e exigiu uma tomada de posição do Presidente da República face aos acontecimentos.
No Algarve, a mobilização teve outro desfecho. Centenas de pessoas reuniram-se num cordão de solidariedade na Praça da Liberdade, em Faro, acabando por desmobilizar de forma totalmente pacífica ao final da tarde.
A contestação nacional surge na sequência da ação policial de desocupação ocorrida na madrugada de domingo, que utilizou força física e cães no Porto, deixando um rasto de pelo menos 33 feridos a nível nacional — 27 em Lisboa, cujos afetados já tiveram alta hospitalar nos hospitais de São José e Santa Maria, e seis no Norte. Nas assembleias populares, a atuação das autoridades foi catalogada como o maior atentado à democracia desde o 25 de Abril.
A resposta institucional não tardou. A Ordem dos Advogados exigiu formalmente um inquérito urgente por parte da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI). Para o bastonário João Massano, é fundamental apurar se os limites do uso da força foram ultrapassados. O responsável criticou ainda a atuação policial por ter impedido os advogados de prestarem assistência jurídica aos detidos à porta de uma esquadra, classificando a situação como inaceitável num Estado de Direito.
Em paralelo, um grupo de 23 figuras proeminentes da sociedade civil, incluindo nomes como Capicua, Tiago Rodrigues, Pedro Abrunhosa, Helena Roseta, Pilar del Río, Susana Peralta e Ricardo Sá Fernandes, endereçou uma carta aberta ao chefe de Estado. No documento, os subscritores apelam a uma intervenção direta contra a repressão policial que consideram infundamentada, desnecessária e desproporcional, alertando que o silêncio institucional não acalma os ânimos mas antes prolonga a instabilidade pública.









