Lisboa, Portugal – A realidade das salas de aula em Portugal mudou radicalmente na última década. Hoje, o sistema de ensino obrigatório acolhe cerca de 195 mil alunos estrangeiros, um salto gigante face aos 50 mil registados há dez anos. Só no ensino público, o número de estudantes filhos de cidadãos estrangeiros mais do que duplicou entre 2018 e 2023, escalando de 53 mil para mais de 140 mil. Em vários pontos do país, estes jovens já representam entre 30% e 40% de cada turma, trazendo um mosaico de culturas e, simultaneamente, o enorme desafio de superar as barreiras da língua.
No Agrupamento de Escolas Patrício Prazeres, em Lisboa, a diversidade é a norma. Dos cerca de 770 alunos que ali estudam, perto de 300 têm raízes noutros países. São 39% da comunidade escolar, distribuídos por 36 nacionalidades diferentes. Para muitos destes miúdos, o português é um território desconhecido que urge desbravar para poderem fazer amigos e acompanhar a matéria.
Pontes criadas através de jogos e desenhos
É neste cenário que atua a Academia CV.pt – Capacitar e Valorizar em Português. O projeto nasceu em 2016, fruto de uma parceria entre a associação Renovar a Mouraria e a Fundação Cidade de Lisboa. Semanalmente, voluntários juntam-se a alunos referenciados pelas escolas para sessões individuais onde os manuais e os testes formais dão lugar a desenhos, jogos e conversas descontraídas.
Nusrat, de 10 anos, chegou do Bangladesh há três. Hoje, na escola lisboeta, já partilha as suas preferências com clareza. Gosta de pintar, de escrever, de ler em português e “mais ou menos” de matemática. Este progresso resulta de um esforço conjunto que vai além da gramática.
Mais do que aprender, pertencer
Para Nuno Melendez, coordenador do projeto no agrupamento, a barreira do idioma é o principal obstáculo à inclusão, com forte impacto no insucesso escolar que costuma afetar os alunos migrantes. Daí que as tutorias promovam uma ligação afetiva estável. A tutora Heloísa Fuzari explica que o foco está em estabelecer uma conexão de confiança com a criança, permitindo uma aproximação natural ao idioma. Matilde Marques, outra voluntária, foca-se na autoestima para que os alunos se sintam livres e seguros dentro e fora da sala de aula. Já para Marta Guerreiro, o valor do trabalho reside em oferecer uma semente de segurança num percurso cheio de altos e baixos.
Num país que assinala a sua identidade nacional no Dia de Portugal, a 10 de Junho, a língua assume-se como o elemento aglutinador. Os resultados avaliados junto dos professores mostram que o caminho da multiculturalidade para a interculturalidade está a dar frutos, devolvendo a estas crianças o direito de pertencerem inteiramente à comunidade onde agora vivem.










