Macau, China – O plano inicial previa apenas uma paragem temporária de cinco anos para concluir a licenciatura em Direito e regressar a Cabo Verde. Contudo, a travessia que começou em 1990 no Porto Exterior transformou-se num percurso de mais de três décadas. Álvaro dos Santos Rodrigues fez de Macau a sua residência definitiva, o lugar onde ergueu a carreira jurídica e formou família.
Natural da Ilha de Santiago, criado numa família de recursos modestos, o percurso académico parecia apontar para Portugal quando concorreu a uma bolsa de estudo. As circunstâncias acabaram por ditar outras coordenadas: antes de o território sob administração portuguesa surgir no mapa, Kiev chegou a estar no horizonte. A aterragem no Oriente colocou à prova a capacidade de adaptação a uma realidade da qual pouco ou nada sabia.
O impacto da chegada desfez de imediato as expectativas alimentadas durante a viagem. Ao desembarcar com outros colegas, o primeiro contacto com os Serviços de Fronteira revelou agentes que comunicavam apenas em chinês, contrariando a ideia de que encontrariam um quotidiano moldado pela língua portuguesa, à semelhança do contexto cabo-verdiano. Somaram-se a estranheza gastronómica, a densidade das ruas estreitas e a barreira de um idioma incompreensível.
Refúgio no alto da colina
Nesse período de transição, as antigas instalações da Universidade de Macau desempenharam um papel central no dia a dia do estudante. O espaço funcionou simultaneamente como residência, ponto de convívio e porto de abrigo face ao isolamento inicial, agravado pelas telecomunicações precárias do início dos anos noventa e pela distância da família.
Apesar da saudade e do choque cultural, o compromisso com os estudos prevaleceu. A passagem que deveria terminar com a entrega do diploma converteu-se numa permanência duradoura, consolidando a integração de Álvaro Rodrigues na vida comunitária e no setor jurídico da região.









