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Home Editorias Ciência

Antigo atlas anatómico chinês muda o que sabemos sobre acupuntura

Redação O Tablóide por Redação O Tablóide
6 de setembro de 2020
Reading Time: 5 mins read
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5petalpics / Pixabay

Um antigo atlas anatómico proveniente da Dinastia Han, da China, muda muito daquilo que sabemos sobre acupuntura. Esta técnica de medicina alternativa pode ser mais credível do que aquilo que pensamos.

Contents
Antigos textos chinesesDissecando a HistóriaAs implicações

A história da anatomia reza que foram os antigos gregos que mapearam o corpo humano pela primeira vez. Galeno, o “Pai da Anatomia”, trabalhou com animais e escreveu livros didáticos de anatomia que duraram 1.500 anos. A anatomia moderna começou no Renascimento com Andreas Vesalius, que desafiou o que tinha sido transmitido por Galeno. Ele trabalhou a partir de seres humanos e escreveu o seminal “De humani corporis fabrica“.

Cientistas da China antiga nunca são mencionados nesta história da anatomia. Contudo, um novo artigo publicado esta semana na revista científica The Anatomical Record mostra que o atlas anatómico mais antigo, na verdade, vem da Dinastia Han, da China, e foi escrito há mais de 2.000 anos. A descoberta muda tanto a história da medicina quanto a nossa compreensão das bases da acupuntura – um ramo fundamental da medicina chinesa.

Há um número cada vez maior de estudos baseados em evidências que apoiam a eficácia da acupuntura em condições tão variadas quanto enxaqueca e osteoartrite do joelho. O esboço mais recente das diretrizes do National Institute for Health and Care Excellence, no Reino Unido, publicado em agosto de 2020, recomenda o uso da acupuntura como tratamento de eleição para a dor crónica.

Durante uma sessão de acupuntura, agulhas finas são inseridas no corpo em pontos específicos para promover a autocura. Isto acontece porque as agulhas (de alguma forma) criam equilíbrio na força vital ou “Qi” da pessoa. Como é que isto acontece é objeto de muitas investigações. A suposição é que os pontos de acupuntura têm algumas propriedades fisiológicas ainda não descobertas que provavelmente têm base neurológica.

Antigos textos chineses

Os textos trabalhados pela equipa de investigadores, à qual pertence o português Rui Diogo, são os manuscritos médicos Mawangdui, que estiveram perdidos durante dois milénios. Eles foram escritos durante a dinastia Han e eram tão valorizados que uma cópia foi enterrada com o corpo de Lady Dai, uma aristocrata da dinastia Han em 168 a.C. Os túmulos de Lady Dai e da sua família foram abertos em 1973 e os manuscritos de Mawangdui foram descobertos.

Eles são claramente precursores dos famosos textos de acupuntura do Cânone de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Huangdi Neijing), que foi copiado ao longo da história e é reverenciado na China como a fonte da teoria e prática da acupuntura. As descrições dos meridianos e pontos encontrados nele ainda são a base da medicina tradicional chinesa de hoje.

Na realidade, os primeiros textos de Mawangdui não mencionam os pontos de acupuntura, e as descrições que eles dão dos meridianos são mais simplistas e menos completas. Mas algumas passagens foram claramente copiadas diretamente para o Cânone do Imperador Amarelo, o que demonstra que esses textos foram escritos primeiro.

Os caminhos dos meridianos sempre foram interpretados como baseados em ideias esotéricas sobre o fluxo de energia vital “Qi“, em vez de descrições empíricas do corpo. Mas o que o texto Mawangdui descreve é um conjunto de meridianos. Em textos posteriores, geralmente são ilustrados pictoricamente como linhas na pele.

Um meridiano é descrito em termos de como é que ele progride pelo corpo. O meridiano de tai yin do braço, por exemplo, é descrito como começando no centro da palma da mão, estendendo-se ao longo do antebraço entre os dois ossos e assim por diante. Mas e se essas descrições não fossem de um caminho de energia esotérico, mas de estruturas anatómicas físicas?

Dissecando a História

Para descobrir, os investigadores fizeram dissecações detalhadas do corpo humano, procurando caminhos que o percorressem ao longo das rotas descritas no Mawangdui.

Esta é uma visão do corpo muito diferente da ocidental. Na medicina ocidental moderna, o corpo é dividido em sistemas, cada um com a sua função distinta.

Isso claramente não era o que os escritores do Mawangdui estavam a fazer. As suas descrições são mais focadas em como diferentes estruturas interligam-se para criar um fluxo através do corpo. Eles não prestam atenção à função específica das estruturas.

Para o estudo, a essência anatómica do trabalho teve que ser desenterrada replicando cuidadosamente as dissecações científicas dos autores. Para tal, os cientistas tiveram que reconstruir a partir dos seus textos.

O que descobriram foi muito emocionante. Cada um dos meridianos Mawangdui mapeados nas principais estruturas do corpo humano. Algumas dessas estruturas são visíveis apenas para anatomistas através de dissecação e não podem ser vistas na pessoa enquanto é viva.

No tai yin do braço, por exemplo, o caminho é descrito no cotovelo como indo “abaixo do tendão até ao bíceps”. Quando olhamos para o cotovelo humano dissecado, há uma faixa plana de tecido chamada aponeurose bicipital, e as artérias e os nervos do braço passam por baixo dela.

Os cientistas acreditam que é isso que os antigos anatomistas chineses estavam a descrever. Não há como saber sobre estas estruturas, exceto fazendo anatomia ou lendo o trabalho de alguém que já o fez.

As implicações

Portanto, os investigadores acreditam que os manuscritos Mawangdui são o atlas anatómico mais antigo do mundo, baseado na observação direta do corpo humano. O objetivo dos autores, presumivelmente, era registar o corpo humano em detalhe.

Um exame anatómico deste tipo teria sido um privilégio raro, disponível apenas para um seleto grupo de cientistas favorecidos pelo imperador. É provável que o propósito dos textos fosse expressamente transmitir esse conhecimento a outras pessoas. Médicos e estudantes de medicina poderiam usar os textos para aprender sobre anatomia e envolver-se no debate médico com base num conhecimento sólido do corpo humano.

Esta investigação tem implicações fundamentais para a teoria da acupuntura e, portanto, para a pesquisa moderna. O Cânone do Imperador Amarelo claramente baseia-se e desenvolve o conteúdo do Mawangdui. Se o Mawangdui é um atlas anatómico, é altamente provável que os textos seguintes também sejam baseados em anatomia.

O estudo realça as contribuições até então desconhecidas dos anatomistas chineses. Esta nova informação desafia a perceção da natureza esotérica da acupuntura e enraíza-a na ciência anatómica.


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