Nova Iorque, Estados Unidos – A ciência nuclear deixou de ser vista apenas como uma fonte de energia para se assumir como um pilar essencial na saúde e no desenvolvimento agrícola. Sob a égide da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), os países de língua portuguesa encontraram no idioma comum uma via rápida para a transferência de conhecimentos técnicos vitais, capazes de transformar hospitais e explorações rurais em África e na América Latina.
O impacto prático desta rede de solidariedade é visível nos cuidados de saúde. Nuno Luzio, diretor adjunto do Escritório de Ligação da AIEA em Nova Iorque, sublinha que o tratamento do cancro é o exemplo mais evidente desta eficácia. Cerca de metade dos pacientes oncológicos necessita de radioterapia em alguma fase da doença — um procedimento que depende inteiramente de tecnologia nuclear para atingir o sucesso terapêutico.
Atualmente, a colaboração integra Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique — que se juntou ao grupo em 2023 — e Portugal. Apesar de cada nação percorrer o seu próprio caminho, o Brasil destaca-se como o motor desta articulação. Com um programa nuclear ambicioso e pacífico, o país detém recursos humanos e técnicos que sustentam um assento no Conselho de Governadores da AIEA. Portugal, embora não possua um programa nuclear nacional, é um parceiro de peso, oferecendo um conhecimento profundo em física e medicina nuclear.
Na prática, o intercâmbio vai muito além dos corredores diplomáticos. No ano passado, técnicos e enfermeiros do Hospital Central de Maputo, em Moçambique, receberam formação especializada em radioterapia no Brasil. Noutra frente, Portugal assegurou o financiamento de cinquenta bolsas de estudo e a isenção de propinas em mestrados focados em física e medicina nuclear, dando prioridade a estudantes de países africanos lusófonos. Estas iniciativas formam uma rede de apoio que fortalece as capacidades institucionais em momentos de necessidade crítica.
A urgência desta cooperação é ditada pela demografia. O aumento da esperança média de vida trouxe consigo uma subida nos casos de doenças oncológicas. A tecnologia nuclear atua aqui como uma linha da frente, cobrindo todo o percurso do paciente: desde a imagiologia avançada, que permite detetar tumores em fases precoces, até à radioterapia direcionada e ao suporte paliativo que garante dignidade a quem sofre.
Além da oncologia, o alcance desta ciência pacífica estende-se a áreas estratégicas como a gestão de recursos hídricos e a agricultura de precisão, elementos fundamentais para a segurança alimentar nestas regiões. A aposta é clara: utilizar a tecnologia disponível para enfrentar os desafios do quotidiano, garantindo que o conhecimento, tal como a língua que os une, circule sem barreiras entre os continentes.











