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Home Economia

China já lucra com a Covid-19 (mas se a economia não engrenar depressa, pode nascer uma tempestade)

Redação O Tablóide Por Redação O Tablóide
30 de Março de 2020
Reading Time: 6 mins read
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Alex Plavevski / EPA

A China já está em fase de recuperação da Covid-19 e a economia do país dá sinais de vida, embora ainda longe dos patamares pré-pandemia. E o facto de o contágio continuar a alastrar por meio mundo está a beneficiar a economia chinesa que tem exportado milhões de equipamentos hospitalares para combater o coronavírus.

Com o controlo do surto de Covid-19 na China e a redução drástica de casos após dois meses de confinamento de grande parte da população e muitas medidas restritivas, a China já está a exportar material de apoio à detecção e à protecção contra o coronavírus.

Nas últimas semanas, países como Portugal e Espanha receberam milhares de equipamentos médicos provenientes da China. O Governo espanhol gastou mais de 400 milhões de euros em kits de testes e em ventiladores comprados a empresas chinesas. E a Lisboa chegou, no passado sábado, um avião com 24 das 35 toneladas que o Governo português encomendou à China, incluindo luvas, máscaras e fatos de protecção.

O Jornal de Negócios avança que a empresa Dawn Polymer, que domina o mercado chinês na área da venda de máscaras, já lucrou quase 2 mil milhões de dólares em apenas seis semanas.

A Espanha chegaram, na semana passada, 340 mil testes de diagnóstico à Covid-19 provenientes da China. Com a redução da procura por estes testes no mercado chinês, as empresas desta área tornaram-se basicamente exportadoras. E algumas delas nem sequer têm os testes que comercializam licenciados na China,segundo o South China Morning Post (SCMP).

“Nem pensei em concorrer pelas aprovações na China”, excplica ao SCMP o empresário Zhang Shuwen, fundador da empresa Nanjing Liming Bio-products que tem vendido kits de teste para a Europa. “O processo leva muito tempo. Quando, finalmente, conseguisse a aprovação, o surto poderia já ter terminado”, salienta Shuwen.

Deste modo, a empresa de Shuwen optou por obter as devidas certificações na União Europeia (UE), para poder exportar os seus testes para o Velho Continente. Obtida a certificação da UE em como cumpre os padrões de segurança, saúde e ambiente do regulador europeu, a empresa está a vender testes para Itália, Espanha, Áustria, Hungria e França. Fora da Europa, vende também para Irão, Arábia Saudita, Japão e Coreia do Sul.

O SCMP avança que 102 empresas tinham, até à semana passada, autorização da UE para vender os seus produtos para a Europa, enquanto só uma empresa o podia fazer nos EUA. Por comparação, apenas 13 empresas têm autorização da autoridade do medicamento chinesa para vender os kits de teste da Covid-19 na China.

A situação levanta alguma polémica, até porque surgiram dúvidas quanto à fiabilidade dos kits de testes vendidos a Espanha. O jornal espanhol El País avançou que os testes provenientes da China teriam apenas uma taxa de detecção de 30% para o Covid-19, quando deveriam ter 80% de precisão. A mesma acusação foi feita por autoridades filipinas.

Apesar de algumas dúvidas que podem surgir, Governos de todo o mundo estão a recorrer a estas empresas chinesas que disponibilizam versões de testes mais rápidas, na corrida para tentar travar a pandemia.

“Temos tantas encomendas agora que estamos a trabalhar até às 9 da noite, sete dias por semana. Estamos a pensar em trabalhar 24 horas por dia, pedindo aos trabalhadores para fazerem três turnos”, explica o empresário Shuwen ao SCMP.

Um executivo do grupo BGI, a única empresa chinesa com autorização para vender kits de testes nos EUA, revela ao mesmo jornal que, “no início de Fevereiro, cerca de metade dos kits de testes estavam a ser vendidos na China e metade no estrangeiro”. Mas, agora, “não há quase nenhum a ser vendido internamente”. A produção passou de 200 mil kits por dia para 600 mil, face à procura crescente.

E enquanto a pandemia continuar a alastrar pelo mundo, estas empresas chinesas vão continuar a facturar. A procura afigura-se, para já, “infinita”.

E no meio de uma pandemia que teve origem no país asiático, pode estar aqui a nascer uma dependência mundial da China quanto ao fornecimento de material médico. Até agora, EUA e Europa eram os grandes lideres no âmbito do fornecimento de equipamentos de diagnóstico.

Pandemia fomentou “um despertar geracional”

O controle do surto na China levou já o Governo a reduzir as medidas de confinamento e, nos últimos dias, o Partido Comunista tem passado a ideia de um regresso à normalidade, com lojas e fábricas abertas. Até as estradas voltaram a ter engarrafamentos de trânsito e o ar das grandes cidades está, novamente, saturado de poluição.

Mas há quem diga que é um “falso normal”, justificando, por exemplo, o trânsito com o facto de haver muitas pessoas que têm medo de andar de transportes públicos, como faziam antes da pandemia, e que, portanto, optam por andar de carro.

Por outro lado, se algumas fábricas estão de volta à produção máxima, o país ainda está a recuperar das “feridas” da pandemia devido ao desemprego, às falências e aos receios que ainda persistem. A procura interna decresceu e não se espera que recupere abruptamente.

Enquanto isso, o mundo continua a combater a Covid-19, pelo que a procura externa também está em níveis demasiado baixos que não permitem o desejado crescimento económico imediato.

Há a expectativa de que na segunda metade do ano possa haver uma “vingança gastadora”, com o aliviar das medidas contra a pandemia em diversos países. Mas o medo não deixará assim tão depressa o mundo, até pelos contínuos alertas de especialistas de que haverá um segundo surto do vírus no fim do ano ou no próximo. As precauções e receios do consumidor devem continuar a refrear gastos consumistas por algum tempo.

O previsível cenário de recessão global vai, inevitavelmente, reduzir a procura por bens chineses, o que afectará o crescimento económico do país numa tendência de baixa que não acontecia há décadas.

Com essa ameaça de crise no horizonte e as perspectivas de emprego em baixa, há analistas que alertam para uma possível “tempestade” contra o Partido Comunista, depois de a juventude chinesa ter soltado faíscas de resistência durante o surto de Covid-19.

O jornal britânico The Independent ouviu especialistas que alertam que a pandemia “mobilizou os jovens na China” num “despertar geracional” cujo impacto pode ser semelhante aos efeitos da II Guerra Mundial ou da crise financeira de 2008 e que pode “perturbar a estabilidade social da qual o Partido Comunista depende”.

“Estes eventos recentes fizeram algumas pessoas ver mais claramente que criticar o seu país não significa que não gostam do seu país”, explica ao jornal uma residente em Pequim, Hannah Yang, que criou um canal na rede de mensagens encriptadas Telegram, para partilhar notícias e publicações das redes sociais censuradas.

A par de queixas contra a censura e o secretismo do Governo, proliferaram movimentos nas redes sociais com o intuito de desmontar a propaganda do Partido Comunista durante o surto, e foram organizadas campanhas de recolha de donativos para hospitais em Wuhan, denunciando a falta de equipamentos, contra as alegações dos responsáveis locais.

“Este episódio foi traumático e disruptivo para muita gente jovem e levou-a a reflectir na sua experiência e perspectivas futuras”, salienta também no The Independent o sociólogo Xueguang Zhou da Universidade de Stanford, nos EUA.

Num país onde o patriotismo é alimentado desde tenra idade, as vozes dissonantes são ainda uma minoria. Mas para uma jovem geração que cresceu numa economia florescente, a eventualidade de perder o conforto económico a que está habituada, pode despoletar uma revolta.

Se a economia do país não conseguir retomar a curva de crescimento a breve prazo, o activismo dos jovens pode tornar-se em ruído sério contra o Partido Comunista. Até porque, como diz o professor Fengshu Liu, da Universidade de Oslo, na Noruega, citado pelo The Independent, os rumores das redes sociais podem ser apagados ou censurados, mas o desemprego é mais difícil de anular.

SV, ZAP //

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