Coimbra, Portugal – O aquecimento global deixou de ser uma ameaça teórica para se tornar um perigo real para a mobilidade quotidiana. Quando o termómetro sobe, os efeitos na infraestrutura são imediatos: asfalto que derrete, pontes que sofrem expansão térmica e carris deformados. Em Leipzig, na Alemanha, um dia de junho marcado por 40ºC foi suficiente para que o asfalto amolecido inutilizasse o serviço de elétricos, um exemplo prático das vulnerabilidades que começam a multiplicar-se pelo continente.
Um novo relatório da Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa (UNECE) projeta um futuro preocupante para a Europa, Ásia Central e América do Norte a partir de 2051. Nessas regiões, as redes de transporte enfrentarão, anualmente, entre 10 a 50 dias com temperaturas superiores a 25°C, obrigando a mudanças estruturais profundas. É neste contexto de fragilidade que surge o Sistema de Mobilidade do Mondego, em Coimbra, como um caso de sucesso a seguir.
Com uma extensão de 42 quilómetros, a rede de autocarros de trânsito rápido (BRT) que liga o centro de Coimbra a Lousã, Miranda do Corvo e Serpins foi desenhada para resistir a um leque variado de eventos extremos, desde inundações e incêndios florestais a deslizamentos de terras. As estratégias aplicadas na região incluem pavimentos desenvolvidos especificamente para suportar o calor intenso e sistemas de drenagem preparados para absorver o volume de cheias centenárias. A vigilância contra deslizamentos é feita através de cabos de fibra ótica, enquanto a limpeza rigorosa da vegetação nos canais de infraestrutura atua como um travão preventivo contra fogos.
A necessidade destas adaptações é urgente. Locais como Sevilha, em Espanha, e Esmirna, na Turquia, deverão enfrentar, entre 2051 e 2080, mais 12 dias por ano com máximas acima dos 43ºC. O cenário complica-se com as inundações, responsáveis por 73% dos danos em redes de transporte a nível global. Bacias hidrográficas cruciais, como as do Danúbio, Reno, Elba, Pó, Dnieper, Don e Volga, estão na linha da frente de uma exposição crescente a episódios de cheias severas.
A crise estende-se ainda ao setor marítimo. A elevação do nível do mar e a intensidade das tempestades ameaçam severamente os portos globais, com estimativas a apontar que, até ao final do século, entre 71% e 89% destas infraestruturas estarão expostas a riscos extremos. Estima-se que cerca de cinco milhões de europeus possam vir a lidar com inundações costeiras quase todos os anos.
Perante este cenário, a UNECE sublinha que o custo da inação será astronómico. O objetivo da publicação é fornecer aos governos e técnicos as ferramentas necessárias para mapear vulnerabilidades, transformando o exemplo de Coimbra numa referência estratégica para manter as sociedades conectadas num mundo cada vez mais instável.











