Nova Iorque, Estados Unidos – O percurso entre uma sala de aula no Brasil e a sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, é um salto que Marina e Rafael descrevem como quântico. O que começou numa terceira série, lado a lado, numa escola que abraçava a inclusão como prática quotidiana, transformou-se, duas décadas depois, no Instituto Nossa Casa. A jornada, alimentada por uma década de dedicação intensa, culminou na apresentação desta iniciativa perante uma plateia global.
A génese do projeto reside numa falha estrutural que o Brasil enfrenta há anos: a ausência de dados estatísticos fiáveis sobre pessoas com paralisia cerebral e outras condições neurológicas. Sem números que revelem a dimensão real de quem vive com perturbações do neurodesenvolvimento, memória ou limitações motoras, desenhar políticas públicas eficazes torna-se um exercício frustrante. O instituto nasceu, precisamente, para preencher este vazio de informação e suporte.
A ciência ao serviço das famílias
A grande aposta de Marina e Rafael passa pela tradução do saber científico. Não basta que investigadores em várias partes do mundo publiquem descobertas; é urgente que esse conhecimento chegue, de forma acessível e prática, a quem lida com estas condições no dia a dia. Ao trabalharem em proximidade com as famílias e com as próprias pessoas com deficiência, os fundadores do instituto garantem que a informação não se perde em manuais técnicos, mas que se traduz em melhoria direta na qualidade de vida.
Nos corredores da ONU, a dupla percebeu que a luta não é solitária nem exclusiva do território brasileiro. O combate ao capacitismo, as barreiras de acessibilidade e a dificuldade em aplicar leis que protejam os direitos fundamentais são problemas universais. A participação na conferência permitiu a Marina e Rafael integrar uma rede internacional de apoio, onde a experiência da Nossa Casa é vista como um exemplo de como a determinação comunitária pode, por vezes, contornar a crónica escassez de recursos financeiros.
Um horizonte sem fronteiras
Ao regressarem a casa, o sentimento é de renovação. O que antes era um sonho local, nascido de memórias escolares, ganhou agora contornos planetários. O objetivo para os próximos tempos é claro: manter esta rede global ativa, fomentando a colaboração e a mentoria internacional para maximizar o impacto local.
A necessidade desta cooperação é urgente. Estima-se que 16% da população mundial — mais de mil milhões de pessoas — viva com algum tipo de deficiência. Para Marina e Rafael, a experiência em Nova Iorque provou que a empatia, cultivada ainda na infância, permanece a ferramenta mais eficaz para derrubar fronteiras e transformar realidades à escala global. O sonho, dizem, cresceu tanto quanto o planeta.










