A humanidade mal arranhou a superfície do que o oceano tem para oferecer. Com apenas um quarto do leito marinho mapeado, o cientista Ronaldo Christofoletti defende que o investimento em investigação nas profundezas é uma urgência estratégica. Não se trata apenas de curiosidade científica, mas de uma fronteira económica e farmacológica ainda por desbravar.
O potencial é vasto. Relatórios recentes apontam para a biotecnologia como uma das maiores promessas do ambiente marinho, com a descoberta de novos fármacos capazes de oferecer curas para doenças que hoje desafiam a medicina moderna. A exploração destes recursos exige, contudo, um rigor cauteloso. O erro cometido na exploração terrestre — marcado pela extração desenfreada e pela degradação irreparável de ecossistemas como as florestas — não pode repetir-se nas profundezas.
A extração de minerais raros, essenciais para o avanço das tecnologias atuais, exemplifica esta necessidade de equilíbrio. O fundo do mar apresenta-se como uma reserva estratégica, mas Christofoletti sublinha que a exploração deve seguir critérios de sustentabilidade desde o primeiro dia. O conhecimento é o único travão eficaz contra o desastre ambiental.
Neste cenário, os países de língua portuguesa ocupam uma posição privilegiada. A geografia é um trunfo indiscutível, já que todas as nações lusófonas possuem uma ligação direta ao oceano. A partir desta premissa, o planeamento espacial marinho surge como o instrumento fundamental para gerir estas áreas.
O caso de Cabo Verde ilustra bem este domínio, sendo um arquipélago onde o mar supera, em larga escala, a superfície terrestre. Portugal, por sua vez, detém a maior Zona Económica Exclusiva da Europa, proporcionalmente falando, um ativo de valor incalculável. Junte-se a este grupo o Brasil, com a sua costa de dimensões continentais, além de Angola e Moçambique, e o desenho de uma estratégia conjunta torna-se evidente. Conhecer e planear o uso deste fundo do mar não é uma opção, mas uma responsabilidade soberana.
O planeamento espacial marinho já começa a ganhar tração, com o Brasil a ser um dos países a avançar com modelos de gestão integrada. Para Christofoletti, a ciência não é apenas um suporte, mas o principal aliado na criação de estruturas que permitam transformar o potencial oceânico em benefícios reais e duradouros para toda a sociedade. A transição para uma economia azul sustentável passa, obrigatoriamente, por esta visão estratégica do espaço marítimo lusófono.






