Gaza, Palestina – O rasto de destruição que atravessa os Territórios Palestinos desde 7 de outubro de 2023 não poupou os mais frágeis. Um documento extenso, redigido por especialistas em Genebra, apresenta evidências de uma estratégia que terá visado deliberadamente menores, mergulhando a juventude local num ciclo de violência que, segundo os investigadores, compromete a própria viabilidade do futuro palestino.
O período analisado, que se estende até 31 de março de 2026, contabiliza números que chocam pela dimensão: 20 mil crianças perderam a vida e outras 44 mil ficaram feridas. Srinivasan Muralidhar, responsável pela investigação, aponta que os menores representam quase um terço de todas as vítimas fatais na região, uma estatística que desmente qualquer ideia de dano colateral acidental.
A ofensiva militar tomou duas vias principais. Por um lado, o uso de explosivos de alto impacto em bombardeios aéreos; por outro, a precisão letal de drones, quadricópteros e franco-atiradores. Esta pressão militar constante, mesmo após o cessar-fogo estabelecido em outubro de 2025, mantém o medo como elemento central do quotidiano infantil.
A brutalidade do conflito materializa-se em episódios de crueldade extrema. O relatório recorda o massacre na Praia de Zikim, onde cinco adolescentes — quatro rapazes e uma rapariga entre os 16 e os 17 anos — foram executados após procurarem abrigo numa casa de banho pública. Nem a intervenção de um pescador e de um militar foi suficiente para evitar o destino trágico do grupo.
Noutro ponto da geografia do conflito, na Cisjordânia, a desumanização atingiu níveis críticos. Um jovem de 14 anos, atingido por disparos de uma patrulha militar enquanto saía de casa, agonizou durante 45 minutos. Perante o olhar dos militares, que mantiveram conversas e fumaram enquanto o rapaz perdia a vida, a mãe da vítima foi impedida de prestar socorro, sendo também ela alvo de disparos quando tentou aproximar-se.
O impacto psicológico desta realidade é, talvez, a ferida mais profunda. A combinação de fome extrema, orfandade, destruição de escolas e o colapso do sistema de saúde desenhou um cenário de orfandade coletiva e trauma geracional. A infância, na região, tornou-se um conceito em ruínas.
Estas conclusões, que confirmam alertas anteriores feitos por diversas organizações de direitos humanos, ganham agora uma dimensão jurídica acrescida. Os dados reunidos pela comissão foram integrados no processo que a África do Sul move contra Israel na Corte Internacional de Justiça, onde se discute a responsabilidade estatal sobre as violações sistemáticas que continuam a marcar o território.











