Os invernos podem estar prestes a tornar-se menos ameaçadores para a população mais velha. A agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) deu luz verde à comercialização daquela que é a primeira vacina contra a gripe baseada na tecnologia de RNA mensageiro (mRNA). O novo fármaco, desenvolvido pela farmacêutica Moderna, utiliza o mesmo método inovador que ganhou destaque global durante a pandemia de covid-19.
A autorização definitiva foi concedida para adultos com idades compreendidas entre os 50 e os 64 anos, já com vista à época de gripe de 2026-2027. Para a faixa etária acima dos 65 anos, o regulador optou por um processo de aprovação acelerada. Isto significa que a vacina poderá ser imediatamente administrada a este grupo de maior risco enquanto a empresa conclui um estudo clínico adicional desenhado para confirmar de forma definitiva a eficácia nos idosos.
Eficácia superior nos ensaios clínicos
A decisão assentou nos resultados de um ensaio clínico de fase 3 que envolveu cerca de 40 mil participantes. Os dados analisados mostraram que a nova fórmula reduziu os casos de gripe em 27% quando comparada com as vacinas convencionais atualmente disponíveis no mercado. No que toca à segurança, os investigadores que analisaram os dados nos ecrãs dos seus computadores portáteis não identificaram problemas graves.
Registou-se, contudo, uma maior incidência de efeitos secundários de curto prazo — como dor no braço, fadiga, dores de cabeça e febre ligeira —, embora estes tenham sido descritos de forma geral como ligeiros e passageiros. O grande trunfo desta tecnologia não é ser uma vacina universal, mas sim permitir uma adaptação rápida assim que as estirpes de gripe de cada ano sejam identificadas.
Os especialistas explicam que a flexibilidade do mRNA permite atualizar a formulação em tempo recorde para fazer frente às mutações constantes do vírus. Comparada com a proteção tradicional, a eficácia estimada situa-se entre 25% e 30% acima do habitual, com um foco muito claro na proteção da população sénior.
A ameaça real da gripe sazonal
E há urgência nesta proteção. Os mais velhos continuam a ser as principais vítimas da gripe sazonal. Durante a temporada de 2024-2025, as pessoas com 65 ou mais anos representaram 57% dos internamentos hospitalares e uns expressivos 71% dos óbitos associados à doença. No total dessa mesma época, estima-se que 51 milhões de norte-americanos tenham contraído o vírus, resultando em cerca de 710 mil hospitalizações e 45 mil mortes.
O caminho até à aprovação, no entanto, não foi isento de obstáculos. No início deste ano, o projeto enfrentou um revés regulatório quando a FDA recusou inicialmente analisar o pedido de aprovação da Moderna, apontando dúvidas sobre o desenho do ensaio clínico. A farmacêutica contestou vigorosamente a decisão e, após negociações, o regulador recuou e aceitou avançar com a avaliação. Em junho, um comité consultivo independente concluiu que os benefícios superavam claramente os riscos, abrindo a porta à decisão final.
O horizonte que se abre agora vai além da gripe. A Moderna já revelou que este passo facilita o desenvolvimento de vacinas combinadas que possam proteger contra múltiplos vírus respiratórios em simultâneo. O objetivo final é conseguir aprovação para uma vacina única sazonal que integre a proteção contra a gripe e contra a covid-19, simplificando de forma significativa as campanhas de vacinação anuais.











