A literatura tem, muitas vezes, a função de ser o espelho incómodo de uma sociedade. Foi precisamente esse o reflexo que o escritor João Morgado propôs na noite de 17 de julho, na Biblioteca Municipal de Penafiel, durante o lançamento do seu mais recente romance, Cemitério de Pardais. Afastando-se momentaneamente dos épicos históricos que consolidaram o seu nome além-fronteiras, o autor covilhanense vira agora a sua pena para uma realidade incontornável e silenciosa: a velhice em Portugal.
Num país onde as projeções indicam que, a curto prazo, um em cada três cidadãos terá mais de 65 anos, Morgado recusa tratar o envelhecimento como mera estatística. Para o autor, trata-se de um tema estruturante que a contemporaneidade lida com um evidente “embaraço coletivo”.
“Vivemos numa sociedade que celebra a juventude, a beleza, a inovação tecnológica, a velocidade, a produtividade, o que empurra os velhos para as margens” — João Morgado
Durante a apresentação, o autor recorreu a uma metáfora contundente para ilustrar esta marginalização: “A sociedade parece um daqueles móveis que se compram e se montam em casa. Tudo encaixa, mas no fim sobram sempre uns parafusos – são os velhos.”
O corpo que cede e o espírito que resiste
Cemitério de Pardais acompanha os dias de um homem de 88 anos, forçado a fazer o balanço da vida que viveu. Assumido pelo próprio criador como um “livro incómodo”, a obra não romantiza a degradação física ou mental, nem escamoteia o peso do abandono familiar. Contudo, o abandono não surge aqui como um panfleto acusatório, mas sim como uma teia complexa de distâncias gradualmente construídas por vidas ocupadas demais para parar.

Mais do que a crónica de um fim anunciado, a obra revela-se um tratado sobre a resiliência do afeto. No centro da narrativa habita um amor imperfeito e teimoso: o do protagonista pela mulher que perdeu num acidente, a quem continua a declamar poemas num ato de devoção quase cega. Na análise do crítico José Alberto Damas, que conduziu a apresentação em Penafiel, trata-se de um livro que “primeiro se estranha e depois se entranha”.
Sinergias artísticas e projeção lusófona
A sessão em Penafiel destacou-se pela confluência de várias disciplinas artísticas, sublinhando o carácter transversal da obra de Morgado. O evento foi precedido por uma visita à exposição de artes plásticas reVER ESCRITAS, de Bruno Santos, e culminou num momento musical intimista proporcionado por Daniel Lemos (guitarra) e Sérgio Calisto (violoncelo e nyckelharpa).
Na plateia, o eco internacional do trabalho de João Morgado fez-se sentir através da presença de diversas figuras do meio intelectual e lusófono, como o luso-brasileiro Fabiano de Abreu Agrela, diretor de comunicação e membro de conselhos científicos, evidenciando a forte rede de cooperação cultural que acompanha o trajeto do autor.
Regresso a Magalhães e salto para o cinema
Apesar da densidade da sua nova publicação, João Morgado mantém o olhar fixo no futuro. O escritor confirmou estar a promover uma nova edição do seu aclamado romance histórico Magalhães e a Ave-do-Paraíso, justificando que o navegador “levanta questões fascinantes sobre lealdade, pátria e grandeza humana, e merecia ser revisitado”.
Paralelamente à preparação de novas traduções internacionais das suas obras, Morgado revelou estar a explorar novas linguagens criativas. “Estou a trabalhar num guião para cinema, uma outra vertente que estou a desenvolver… sempre na minha filosofia de aceitar trabalhos que me desafiem”, concluiu o autor, garantindo que, enquanto houver leitores, continuará a dar rosto àqueles que o mundo insiste em não ver.







