Nova Iorque, Estados Unidos – A partir de janeiro de 2027, Portugal ocupará um lugar rotativo no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O mandato, que se estenderá por dois anos, surge num momento em que a arquitetura política global enfrenta uma fragmentação profunda e um número de conflitos armados sem precedentes desde o final da Segunda Guerra Mundial. A estratégia lusa, segundo o primeiro-ministro Luís Montenegro, assenta na capacidade histórica do país para estabelecer diálogos e erguer pontes entre nações distantes.
Em Nova Iorque, durante uma série de encontros diplomáticos, Montenegro reafirmou a crença no multilateralismo. Para o governante, a identidade de Portugal, forjada em quase nove séculos de história, permite uma convivência singular com todos os blocos. Essa inclinação universalista, defende, foi a chave para uma eleição bem-sucedida, conquistada logo na primeira volta, apesar da concorrência de candidatos influentes. Para o Executivo, a negociação permanece a ferramenta mais eficaz para resolver impasses internacionais.
O primeiro-ministro aproveitou a ocasião para tecer elogios ao papel de António Guterres à frente da ONU. O secretário-geral foi classificado como uma referência moral indispensável num tempo em que muitos líderes mundiais parecem desvalorizar o potencial diplomático da organização. Luís Montenegro foi particularmente incisivo ao comentar o impacto da instabilidade no Médio Oriente, descrevendo a atual escalada de custos — nomeadamente nos combustíveis — como uma forma de “masoquismo coletivo”. O líder português sustenta que a crise económica exige uma resposta coordenada, evitando que as nações continuem a aprofundar, por inação, o próprio declínio.
Fora do âmbito estritamente político, a agenda em solo americano serviu também para exibir a vitalidade da economia nacional. Com uma trajetória que aponta para o quarto ano consecutivo de superavit e uma dívida pública que caiu abaixo dos 90% do PIB, Portugal quer distanciar-se da instabilidade do passado. Num discurso sobre transição justa, o governante realçou que 70% da energia consumida no país provém de fontes renováveis, uma bandeira que pretende continuar a agitar durante o seu assento no Conselho de Segurança.
A influência portuguesa estende-se, ainda, ao papel de liderança na CPLP. Montenegro vê na lusofonia um ativo estratégico que facilita a integração cultural e a mobilidade. Contudo, o objetivo de maior ambição diplomática é o reconhecimento da língua portuguesa como língua oficial da ONU. Com 300 milhões de falantes e a posição de maior idioma no Hemisfério Sul, o caminho está traçado por um grupo de trabalho informal. Embora o ritmo de evolução dependa da gestão de outras prioridades globais, o primeiro-ministro mantém o otimismo quanto à possibilidade de ver, finalmente, o português ao lado das seis línguas oficiais atuais na maior cúpula do mundo.











