La Guaira, Venezuela – O cenário que se vive na Venezuela, após os dois violentos sismos que abalaram a região central do país na quarta-feira, dia 24 de junho, é de profunda devastação. Na manhã de quinta-feira, Delcy Rodríguez, presidente interina, confirmou que a lista de vítimas mortais inclui já seis cidadãos portugueses ou lusodescendentes. O número total de mortos ascende aos 164, enquanto o registo de feridos aproxima-se do milhar, atingindo os 971 registos hospitalares.
Os abalos ocorreram com uma proximidade temporal que não deu margem de manobra à população. Às 18h00 locais — 23h00 em Lisboa — a terra tremeu com uma magnitude de 7,2. Apenas 39 segundos depois, um segundo sismo, ainda mais potente, com magnitude 7,5, atingiu a mesma área. O epicentro do primeiro evento situou-se a oeste de Morón, a cerca de 168 quilómetros de Caracas, a uma profundidade de 22 quilómetros. O segundo tremor, mais superficial, ocorreu a apenas 10 quilómetros de profundidade, agravando drasticamente o potencial destrutivo sobre as infraestruturas.
La Guaira, situada na zona norte e vizinha da capital, foi declarada como “zona de desastre”. A destruição é vasta e as autoridades locais admitem que a contagem de vítimas continuará a subir à medida que as equipas de resgate conseguem aceder às zonas mais isoladas. A fragilidade das construções é apontada como um dos fatores críticos nesta catástrofe. Grande parte das habitações na região é composta por estruturas de alvenaria não reforçada, tijolo ou blocos de adobe, materiais que dificilmente resistem a movimentos telúricos desta intensidade.
As projeções internacionais pintam um quadro muito mais sombrio do que os dados oficiais divulgados até ao momento. O Serviço Geológico dos Estados Unidos, que monitoriza a atividade sísmica global, recorreu a modelos informáticos para estimar o impacto real do desastre. As conclusões são alarmantes: existe uma probabilidade de 42% de o número de mortos atingir uma escala entre 10 mil e 100 mil pessoas. Existe ainda uma hipótese, calculada em 17%, de que o número de vidas perdidas supere os 100 mil.
Além da perda de vidas, a economia venezuelana enfrenta um golpe severo. As estimativas indicam que as perdas económicas possam oscilar entre 1% e 7% do Produto Interno Bruto do país. O caos foi ainda agravado por cerca de 20 réplicas que se fizeram sentir após os eventos principais, dificultando o trabalho das equipas de salvamento e aumentando o medo entre os sobreviventes que permanecem desalojados.
Este evento assume contornos históricos. Segundo os registos geológicos, não se sentia um abalo desta dimensão na Venezuela há mais de um século. A memória mais próxima de algo comparável remete para 29 de outubro de 1900, quando um sismo de magnitude 7,7 atingiu a costa nordeste, provocando danos significativos na altura. A situação atual, contudo, é descrita como uma catástrofe de magnitude considerável, com a comunidade portuguesa a sentir, de forma direta e dolorosa, os impactos desta tragédia que mergulhou o país num cenário de incerteza e reconstrução incerta.











