O panorama da imunização infantil em 2025 revela uma realidade dividida: enquanto a maioria das crianças — cerca de 116 milhões — recebeu pelo menos uma dose da vacina DTP (difteria, tétano e coqueluche), uma parcela significativa permanece desprotegida. Ao todo, 13,5 milhões de bebés não tiveram acesso a qualquer imunizante durante o primeiro ano de vida, um grupo classificado pelos especialistas como de “dose zero”.
Os números, que abrangem dados de 195 países, mostram que, embora a cobertura tenha ensaiado uma recuperação, o mundo ainda se encontra um ponto percentual abaixo dos níveis registados em 2019, o marco de referência para a Agenda de Imunização 2030. Além daqueles que nunca foram vacinados, outros 6,2 milhões de menores contam apenas com uma proteção parcial, elevando para quase 20 milhões o total de crianças com esquemas vacinais incompletos ou inexistentes.
A distribuição geográfica deste défice é desigual. Nove países concentram mais de metade das crianças “dose zero” do planeta, entre eles Angola, que surge como a única nação lusófona na lista. Nigéria, República Democrática do Congo, Iémen, Índia, Indonésia, Etiópia, Afeganistão e Paquistão completam este grupo. Nestas regiões, a estabilidade política precária e o subfinanciamento crónico são os principais inimigos do acesso à saúde.
No espaço lusófono, o cenário é díspar. O Brasil, que enfrentou uma quebra severa em 2021, registou uma recuperação expressiva, atingindo 98% de cobertura na primeira dose da DTP em 2025. Portugal mantém-se na vanguarda, com 99% de adesão. Por outro lado, países como Angola, com 67%, e Guiné Equatorial, com 84%, ainda lutam para estender a rede de proteção às suas populações mais jovens.
A instabilidade não é um fenómeno exclusivo de países em desenvolvimento. Em nações de rendimento médio e alto, a hesitação vacinal — que leva ao adiamento ou à recusa deliberada dos fármacos — somada à falta de compromisso político, tem provocado retrocessos. A África do Sul exemplifica esta tendência, com uma queda de 20 pontos percentuais na cobertura da DTP desde 2019.
Em sentido oposto, o Sudão demonstrou que a melhoria é possível mesmo em contextos de crise, registando um avanço notável de 35 pontos percentuais na primeira dose da DTP num único ano. O esforço de vacinação também se estende ao combate contra o vírus HPV. Contudo, o acesso permanece limitado: cerca de 22,8 milhões de meninas residem em países onde a vacina contra o HPV ainda não integra os programas nacionais de saúde, enquanto outras 20,8 milhões não foram alcançadas apesar da existência do plano de imunização.
A proteção contra doenças evitáveis continua a ser uma das intervenções mais económicas e fiáveis para garantir o futuro infantil. O desafio, agora, é assegurar que a localização geográfica ou a situação económica não definam quem sobrevive a patologias que a medicina já sabe como prevenir.











