O estado dos oceanos atingiu um ponto de rutura, com a humanidade a forçar os limites biológicos e climáticos do planeta. Na Terceira Avaliação Mundial dos Oceanos, um relatório extenso coordenado pelas Nações Unidas, o alerta é claro: a combinação perigosa entre alterações climáticas, poluição e perda de biodiversidade ameaça a sobrevivência das economias e a segurança alimentar global.
Maria João Bebianno, académica da Universidade do Algarve e uma das 25 especialistas mundiais responsáveis por este documento, defende que os países de língua portuguesa ocupam uma posição estratégica nesta corrida contra o tempo. Com Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) vastas e ricas, nações como Portugal, Brasil, Cabo Verde e Moçambique possuem a responsabilidade e o potencial para liderar a transição para uma economia azul sustentável.
A urgência da cooperação técnica
A investigadora sublinha que o conhecimento científico é o motor desta transformação. Enquanto o Brasil se destaca como um dos pilares na produção científica, com investigadores integrados no grupo global de peritos, outros países lusófonos enfrentam desafios na recolha de dados nas suas zonas costeiras. A capacitação técnica surge, assim, como uma prioridade. Para Bebianno, a cooperação multilateral é o caminho para colmatar estas lacunas e permitir que nações como Moçambique transformem o seu potencial inexplorado num modelo económico próspero e ambientalmente responsável.
Esta nova edição do relatório inova ao adotar a abordagem “Uma Só Saúde”. O conceito estabelece um vínculo direto entre a integridade dos ecossistemas marinhos e o bem-estar humano. Entre as ameaças destacadas, além da visível acumulação de plástico, a cientista alerta para o perigo crescente dos “poluentes emergentes”, substâncias com impactos profundos e ainda pouco compreendidos nos sistemas biológicos marinhos.
Desafios invisíveis e novas ferramentas
O aumento da temperatura da água, a acidificação e a perda de oxigénio compõem um cenário silencioso, mas devastador. Estas mudanças físicas forçam a migração de espécies, desestabilizando a pesca e a aquicultura. Contudo, há espaço para otimismo: políticas de gestão rigorosas têm demonstrado eficácia, como é visível na recuperação de populações de atum em diversas regiões.
O avanço tecnológico — que inclui drones marinhos, sensores avançados e modelos matemáticos de alta precisão — tem permitido aos investigadores desvendar áreas ultra profundas onde a exploração de combustíveis fósseis ainda persiste, ignorando os riscos ambientais. Paralelamente, o turismo e as energias renováveis offshore emergem como áreas onde a regulação deve ser estrita para garantir a sustentabilidade.
O enquadramento legal internacional também deu passos significativos com a entrada em vigor do Tratado do Alto Mar. Para Bebianno, este instrumento jurídico é fundamental para alcançar a meta de proteger 30% dos oceanos até 2030. Para o espaço lusófono, o desafio é claro: converter a vastidão das suas águas num santuário ecológico que salvaguarde o futuro das próximas gerações.











