O cenário na Venezuela tornou-se mais negro nas últimas horas. A lista de vítimas mortais da sequência de sismos que arrasou o país acaba de ser atualizada, confirmando agora a morte de 28 cidadãos portugueses ou lusodescendentes. Este agravamento eleva o balanço global de óbitos para 929, um número que, segundo as estimativas mais prudentes das organizações que operam no terreno, está longe de ser definitivo.
Tom Fletcher, o rosto da coordenação humanitária da ONU, não escondeu o pessimismo ao falar a partir de Genebra. Com mais de 50 mil pessoas ainda por localizar, a logística de socorro descreve-se como um pesadelo de complexidade. O que resta das estruturas urbanas é um labirinto de entulho onde a esperança de encontrar sobreviventes diminui a cada hora que passa. A operação em curso, que descreve como colossal, enfrenta um obstáculo constante: a ameaça de réplicas que continuam a testar a resiliência das equipas de resgate.
Embora as autoridades locais tenham oficializado a contagem de 589 mortes até ao momento, a observação direta no terreno conta uma história diferente. A destruição é vasta, caótica e, para quem acompanha a situação de perto, sugere que a realidade estatística irá superar em muito o que os registos oficiais conseguem captar hoje. A comparação com catástrofes passadas, como o Haiti em 2010 ou a tragédia na fronteira entre a Turquia e a Síria no ano passado, serve de aviso sobre a verdadeira magnitude do que se desenrola no país.
O esforço internacional ganhou tração com a mobilização de 17 países. Neste preciso momento, 35 equipas especializadas — um contingente que ultrapassa os 1.600 operacionais e conta com a ajuda preciosa de mais de uma centena de cães de busca — estão a escavar os escombros. O Chile, a Colômbia e o México, entre outros, já reforçam o terreno, enquanto Portugal, França, Alemanha e Países Baixos, além de outras nações, preparam o envio de mais recursos humanos e técnicos.
O uso de tecnologia, nomeadamente de drones, tem sido a última cartada para mapear edifícios que se tornaram inacessíveis ou demasiado instáveis para a presença humana. É uma corrida contra o tempo onde cada segundo conta, num teatro de operações que exige não apenas rapidez, mas uma precisão cirúrgica por parte dos especialistas.
A urgência não é apenas física. O Comité Permanente Interagências (IASC), que agrupa várias organizações não-governamentais e agências das Nações Unidas, lançou um apelo desesperado por solidariedade internacional. O alerta é claro: é preciso garantir um corredor humanitário sem entraves para evitar que esta calamidade natural se transforme num desastre humano de proporções ainda mais profundas.
A situação, aliás, não era favorável antes de a terra tremer. Milhões de venezuelanos já lutavam diariamente contra a escassez alimentar e o colapso crónico do sistema de saúde. Para quem vivia numa zona de vulnerabilidade extrema, este abalo não foi apenas um evento natural; foi o golpe final num sistema que já se encontrava em rutura. O IASC recorda que, agora, o foco tem de ser a prestação de ajuda vital — abrigo, água, saneamento e cuidados médicos — mas exige também que a coordenação seja inclusiva, protegendo prioritariamente grupos vulneráveis, incluindo mulheres e raparigas.
A mensagem que sai de Genebra deixa um recado direto às autoridades venezuelanas: é imperativo facilitar a circulação das equipas e garantir uma transparência total na informação. A comunidade internacional respondeu com a promessa de financiamento flexível, mas, na prática, a eficácia desta ajuda dependerá de uma burocracia que se tem de apagar perante a urgência da sobrevivência. O que se espera, e o que Fletcher admite como inevitável, é que as próximas atualizações tragam números cada vez mais pesados sobre a memória coletiva de um país em ruínas.











