Rio de Janeiro (RJ) – A 26ª Conferência Internacional de Aids iniciou-se no Rio de Janeiro sob o peso de uma contradição. Se, por um lado, a ciência apresenta ferramentas de prevenção com eficácia próxima a uma vacina, por outro, a realidade do terreno é marcada por uma exclusão deliberada, alimentada pela ganância das patentes farmacêuticas e por um retrocesso financeiro global sem precedentes nas últimas duas décadas.
O lenacapavir, um injetável que exige apenas duas aplicações anuais e bloqueia quase a totalidade das infeções, ilustra esta barreira. Enquanto o Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual estima que o Brasil teria competência técnica para produzir o fármaco a 372 reais por paciente anualmente, o custo da versão sob patente excede os 20 mil dólares. O cenário torna o medicamento proibitivo para qualquer sistema público de saúde, incluindo o brasileiro.
Veriano Terto Jr., vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, não esconde o desencanto. Com três décadas de vivência com o vírus, o ativista critica a exclusão da América Latina e de nações africanas dos acordos de licenciamento para genéricos. “Contribuímos para o desenvolvimento destas tecnologias, mas somos postos de parte de forma grosseira”, afirma. Para Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids, a lógica é simples: inovação que carece de acesso universal não passa de uma injustiça institucionalizada.
A fragilidade do cenário é agravada pelo esvaziamento dos cofres. O financiamento internacional para o combate ao HIV sofreu um corte de 18% entre 2024 e 2025, uma perda superior a 1,5 milhão de dólares. Trata-se do nível de investimento mais baixo em vinte anos, num contexto onde a ajuda global ao desenvolvimento caiu 23%. Este cenário de asfixia económica ameaça o colapso de serviços comunitários, fundamentais no alcance de populações marginalizadas que, muitas vezes, apenas encontram apoio em organizações lideradas pelos próprios pares.
O relatório apresentado durante o evento alerta para um possível ressurgimento da epidemia. Embora a mortalidade se mantenha nos patamares mais baixos das últimas três décadas, o vírus voltou a ganhar terreno. Em 2025, registaram-se 1,2 milhões de novas infeções e 570 mil mortes, com crescimentos alarmantes em 21 países. A resposta a esta tendência choca, contudo, com entraves legais: em 2026, 168 Estados ainda criminalizam o trabalho sexual e dezenas mantêm leis que punem relações entre pessoas do mesmo sexo, perpetuando o estigma que impede o acesso ao tratamento.
O desafio para os próximos anos é ambicioso, com metas fixadas para 20 milhões de pessoas em prevenção medicamentosa. Contudo, sem uma reestruturação profunda nas dívidas públicas e na soberania sobre a produção de medicamentos essenciais, a meta corre o risco de permanecer apenas no papel.











