O relógio avança para 2030, o marco definido pela ONU para a concretização dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mas o tom em Nova Iorque é de insistência, não de recuo. Com apenas 36% das metas a registarem progressos significativos ou moderados, a delegação portuguesa, liderada pela secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Ana Isabel Xavier, defende que a urgência deve traduzir-se em políticas públicas capilares, que cheguem do governo central até ao último município.
A governante rejeita antecipar o debate sobre o que virá depois da década atual. O foco de Portugal, explica, permanece na máxima de não deixar ninguém para trás até à meta estabelecida em 2015 pelos Estados-membros. Para o alcançar, Lisboa tem concentrado recursos em três eixos estratégicos onde se sente mais apta a liderar a capacitação técnica: a economia dos oceanos, a transição digital e a exploração do espaço.
O fim da lógica de dependência
Um dos pontos mais sensíveis discutidos no Fórum Político de Alto Nível é o financiamento. Para Ana Isabel Xavier, a discussão mudou de prisma: os Estados precisam de investimento direto e não de simples assistência. A diplomata defende a superação da barreira que divide o mundo entre doadores e recetores, propondo, em vez disso, uma dinâmica de parcerias horizontais.
O exemplo prático desta mudança de paradigma está em Cabo Verde. O acordo de conversão da dívida pública em investimento climático, desenhado a partir das prioridades definidas pelo próprio país insular, é o modelo que o executivo português pretende replicar. Na cidade da Praia, empresas portuguesas com know-how específico estão a converter o potencial eólico em energia renovável. O objetivo é claro: transformar aquilo que era visto como uma vulnerabilidade climática numa fonte de autonomia e resiliência económica, evitando que o vento seja apenas um obstáculo ao turismo.
Expansão do modelo lusófono
Este compromisso vai além do arquipélago cabo-verdiano. Portugal confirmou a extensão da iniciativa de conversão da dívida até 2030 e revelou que o mesmo figurino financeiro está a ser replicado em São Tomé e Príncipe, com potencial para chegar a outros parceiros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
A estratégia passa pela criação de um espaço comum de investimento que substitua o assistencialismo por um direito partilhado ao desenvolvimento. Em Portugal, a aplicação prática destas metas começa a notar-se no terreno — o bairro do Zambujal, na Amadora, tornou-se, por exemplo, o primeiro empreendimento de habitação social no mundo a assumir o papel de embaixador dos ODS, provando que o debate global da ONU tem, ou deve ter, uma tradução muito concreta na vida das comunidades locais.











